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Brasil, um país do passado

Maurício Raupp
12/3/18

No Brasil, está na moda um anti-intelectualismo que lembra a Inquisição. Seus representantes preferem Silas Malafaia a Immanuel Kant. Os ataques miram o próprio esclarecimento, escreve o colunista Philipp Lichterbeck.

É sabido que viajar educa o indivíduo, fazendo com que alguém contemple as coisas sob perspectivas diferentes. Quem deixa o Brasil nos dias de hoje deve se preocupar: o país está caminhando rumo ao passado.

No Brasil, isso pode ser algo menos perceptível, porque as pessoas estão expostas ao moinho cotidiano de informações. Mas, de fora, estas formam um mosaico assustador. Atualmente, escrevo em viagem pelo Caribe — e o Brasil que se vê a partir daqui é de dar medo.

Na história, já houve muitos momentos de retrocesso. Jared Diamond os descreve bem em seu livro Colapso: Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Motivos que contribuem para o fracasso são, entre outros, a destruição do meio ambiente, a negação de fatos e o fanatismo religioso — assim como nos tempos da Inquisição, quando o conhecimento em si já bastava para tornar alguém suspeito de blasfêmia.

No Brasil atual, não se grita mais “herege!”, mas sim “comunista!”. É a acusação com que se demoniza a ciência e o progresso social. A emancipação de minorias e grupos menos favorecidos? Comunismo. A liberdade artística? Comunismo. Os direitos humanos? Comunismo. A justiça social? Comunismo.

A educação sexual? Comunismo. O pensamento crítico em si? Comunismo.

Tudo isso são conquistas básicas em sociedades progressistas. O Brasil de hoje não as quer mais.

E a própria acusação de comunismo é um anacronismo — como se houvesse hoje um forte movimento comunista no país. Mas não se trata disso: o novo brasileiro não deve mais questionar, deve obedecer — “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Está na moda um anti-intelectualismo horrendo, “alimentado pela falsa noção de que a democracia significa que a minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento”, como dizia Isaac Asimov. Ouvi uma anedota sobre um pai que tirou o filho da escola porque não queria que ele aprendesse sobre cubismo — o pai acreditava que tinha a ver com Cuba e seria “doutrinação marxista”. Não sei se a história é verdadeira. O pior é que poderia ser.

A essência da ciência é o discernimento. Mas os novos inquisidores preferem vídeos com títulos como “Feliciano destrói argumentos e bancada LGBT”. Destruir, acabar, detonar, desmoralizar — são seus verbos fundamentais. E o alvo é o próprio esclarecimento.

Os inquisidores não querem mais Immanuel Kant, querem Silas Malafaia. Não querem Paulo Freire, querem Alexandre Frota. Não querem Jean-Jacques Rousseau, querem Olavo de Carvalho. Não querem Chico Mendes, querem a “musa do veneno” — talvez para ingerir ainda mais agrotóxicos.

Dá para imaginar o destino de uma sociedade que tem esse tipo de fanático como exemplo: o nada. Os sinais de alerta estão em toda parte. 

O desmatamento da Amazônia teve, naquele ano, o maior aumento em uma década: oito mil quilômetros quadrados destruídos entre 2017 e 2018. Mesmo assim, mineradoras e o agronegócio pressionam por mais abertura da floresta.

Jair Bolsonaro quer realizar esses desejos. O então presidente eleito não acreditava que a seca no Sudeste tivesse relação com o desmatamento e não acreditava nas mudanças climáticas. Para ele, ambientalistas eram “subversivos”.

Enquanto há consenso científico global de que a Terra está se aquecendo devido às emissões humanas de CO₂, Bolsonaro, como Trump, prefere ignorar os fatos.

O futuro chanceler Ernesto Araújo chegou a dizer que o aquecimento global é um complô marxista internacional. Para ele, o problema não é a ignorância — é que a ignorância virou mérito.

Araújo também afirmou que o sexo entre heterossexuais ou comer carne vermelha estariam sendo “criminalizados”. Ele fala sério. Ao mesmo tempo, o Tinder bomba no Brasil e o país tem 220 milhões de cabeças de gado. Mas não importa: o extremista não se interessa por fatos, mas pela disseminação de crenças.

E é justamente esse comportamento — segundo Jared Diamond — que caracteriza as sociedades que fracassam.

A restrição ao pensamento começa na escola. É por isso que os novos inquisidores se concentram nela. O projeto Escola Sem Partido tenta fazer exatamente isso. Leandro Karnal descreveu a ideia como uma “asneira sem tamanho”.

A Escola Sem Partido foi idealizada por pessoas sem noção de pedagogia, formação e educação. Querem reprimir o conhecimento e o debate.

Karl Marx é estudado em qualquer faculdade de economia séria do mundo porque foi um dos primeiros a descrever o funcionamento do capitalismo — e o fez brilhantemente. Mas os novos inquisidores não querem Marx. Acham que o simples contato com suas ideias transformaria qualquer estudante em marxista convicto. Acreditam que o saber é perigoso. E, como bons inquisidores, incentivam a denúncia de professores. A obra 1984, de George Orwell, está se tornando realidade no Brasil de 2018.

A lista de retrocessos é longa: o crescimento da influência das igrejas evangélicas, que fazem negócios com a fé dos pobres; a demonização das artes (exposições são canceladas por medo de extremistas; artistas como Wagner Schwartz recebem ameaças de morte); a negação de modelos alternativos de família; a tentativa de reescrever a história e transformar torturadores em heróis; a defesa do criacionismo. Tomás de Torquemada em vez de Charles Darwin.

E, como se fosse uma sátira, em 2018 a Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul homenageou um terraplanista — um pseudocientista que defendia a teoria da “Terra convexa”. A moção foi aprovada por unanimidade.

Brasil, um país do passado.

Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio em 2012. Desde então, colabora com reportagens sobre o Brasil e a América Latina para os jornais Tagesspiegel (Berlim), Wochenzeitung (Zurique) e Wiener Zeitung. Siga-o no Twitter: @Lichterbeck_Rio

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