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Caravana

Maurício Raupp
29/1/18

Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria

Filha do medo, a raiva é mãe da covardia

Ou doido sou eu que escuto vozes

Não há gente tão insana

Nem caravana do Arará

Não há, não há

(CHICO BUARQUE)

Enquanto os cães ladram, a caravana passa, diz um velho ditado. O povo, tratado como cão, assiste, em plena luz do dia, à negociata, à compra de votos para salvar a pele de um presidente sem votos que rasga a Constituição Federal a cada dia. À noite assistem, em cadeia nacional, a maioria dos deputados e deputadas — muitos eleitos pelos tratados como cães — o pagamento da conta, a impossibilidade de investigação de Michel Temer e seus aliados. As trinta moedas da vez são a mudança no conceito de trabalho na condição análoga à de escravo e a isenção de multas aos que praticaram crimes ambientais.

Já não há por que se ocultar, se reunir à noite ou em fundo de bares com óculos escuros; tudo está pateticamente claro e parece que estamos vencidos, cegos, surdos e mudos.

O não agir, em parte, vem daqueles que arquitetaram, desde os primórdios, a desestabilização do país e a queda de um governo legitimamente eleito (nunca podemos esquecer que dois dias após o impeachment de Dilma Rousseff foi aprovada lei que regulariza atos que até então eram ilegais; ou seja, o governo era legítimo e não havia ilegalidade).

Dos milhares que vestiam verde-amarelo e saíram às ruas, muitos em função da propaganda levada a cabo pela mídia e outros custeados pelo capital de grandes organizações empresariais, quantos, de fato, estavam contra a corrupção? Se assim o era, por que agora não saem às ruas e não batem panelas?

Alguns daqueles milhares agora se omitem porque já alcançaram seu objetivo; outros, porque talvez, em definitivo, tenham perdido a esperança. Por esse corredor existente entre uns e outros passa a caravana.

Alguns daqueles são os que pregaram a raiva, filha do medo e mãe da covardia e, com isso, ao velho estilo de Maquiavel, nos dividiram. Em meio a essa divisão, a caravana passa.

A derrubada do governo não foi só a derrubada de um governo: foi a porta aberta para o ataque aos direitos fundamentais dos cidadãos e aos direitos dos trabalhadores e o ataque voraz do que sempre dilapidaram o país e, agora, já não possuem qualquer espécie de freio. De tentativa em tentativa de acomodar a situação, de fazer de conta que tudo está normal, as instituições acabaram por sair dos trilhos. Executivo, Legislativo, setores do Poder Judiciário, Ministério Público Federal e Polícia Federal em muitas ocasiões acabaram por esquecer seus verdadeiros papéis e, sobretudo, o agir republicano.

Ao fim, temos Executivo legislando (exemplo: portaria que altera um conceito que está no Código Penal), Judiciário fazendo política (basta verificar diversas das afirmações do ministro Gilmar Mendes, que não esconde sua preferência política) e o Legislativo julgando.

Esse é o preço a ser pago por não respeitar a democracia. Vivemos em um Estado de exceção, muito próximo de um Estado, de fato, autoritário e tudo sob o manto de uma aparente situação de normalidade. Já nada nos surpreende, nada falamos e, quando falamos, não somos ouvidos e, sendo, corremos o risco de agressões.

Eis que, no meio de tantos golpes, surge um momento em que alguém fala por nós — senão tudo aquilo que gostaríamos de dizer, ao menos em parte — e não um qualquer, mas alguém ministro do Supremo Tribunal Federal.

O enfrentamento entre os ministros Luiz Roberto Barroso e Gilmar Mendes é simbólico por dois motivos. Um deles pelas afirmações contundentes de Barroso, ao afirmar que Gilmar Mendes mentia e, além disso:

“Não transfira para mim essa parceria que Vossa Excelência tem com a leniência em relação à criminalidade do colarinho branco”;

“Vossa Excelência muda a jurisprudência de acordo com o réu. Isso não é Estado de Direito, isso é estado de compadrio. Juiz não pode ter correligionário.”

Ou seja, fica claro que o ministro Gilmar Mendes, aos olhos do seu colega, bem como aos olhos de inúmeros outros brasileiros, não age de forma republicana e imparcial, o que demonstra a confusão entre Poder Judiciário e política. Quando um ministro do Supremo Tribunal Federal não age com a isenção que o cargo lhe exige, o Estado Democrático de Direito se fragiliza.

O ministro Barroso, em sua fala, fala por milhares de brasileiros calados pela desesperança.

O segundo fato simbólico é a citação de fragmento da letra “Caravana”, de Chico Buarque, a qual contém a frase “Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria / Filha do medo, a raiva é mãe da covardia.”

Para a caravana passar foi necessário não só depor um governo; foi tentar aniquilar um partido político, um pensamento político, e tudo feito com a fomentação do medo como arma — e a raiva como mãe da covardia. Uma tática muito próxima da utilizada em 1964, quando a desculpa para o autoritarismo era o combate ao comunismo.

Essa simbologia pode ser detectada tanto no aspecto geral da política quanto na vida e na obra do próprio Chico Buarque.

Chico Buarque, o Julinho da Adelaide, que teve de mudar de nome para driblar a censura na época da ditadura militar, manteve-se coerente com suas ideias; manteve-se ao lado de Dilma, mesmo durante o impeachment. Chico sabia, como muitos, que o que estava a caminho não era só a derrubada de um governo: era um ataque aos direitos da população brasileira. Como artista e intelectual manteve-se ao lado do povo.

Pagou o preço, acabou sendo censurado novamente, recebendo pedradas como Geni do Zeppelin. Como poucos foi vítima do medo, da raiva e da covardia.

Por isso a fala do ministro Barroso é simbólica e importante. Diz nas linhas e nas entrelinhas. Nas linhas: que o Estado de direito não pode ser um Estado de compadrio. Nas entrelinhas: parece saber o que esteve e ainda está em curso no nosso país e, talvez, haja tempo de reagir.

A caravana passa, faremos barulho.

Por: Mauricio Raupp Martins

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