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DA PANDEMIA AO PANDEMÔNIO

Maurício Raupp
9/4/20

A frase tem sido utilizada por muitos. Recorro a um velho Aurélio que tenho em casa, grande, pesado, físico, do distante ano de 1986. A realidade mudou, mas o sentido das palavras, ainda que em tempos de pós-verdade, segue inalterado. Pandemia, todos sabemos o que é (basta ver a rapidez com que o vírus se alastra e o número de países atingidos). Pandemônio, segundo o velho Aurélio é (página 1256), entre outras definições, reunião ou conluio de pessoas para fazer o mal.

Sim, a realidade mudou, mas não é a primeira, nem será a última vez e, mais uma vez, sobreviveremos. Sobrevivemos à segunda guerra, por exemplo, e de lá a humanidade colheu alguns ensinamentos, entre eles o de que, para garantir a paz e a paz social, deveria haver um Estado de Bem-Estar Social, um mínimo patamar de civilização, pleno emprego, saúde, educação, vida digna, direitos mínimos. Por certo sabemos que em todos estes períodos também houveram pandemônios, mas a humanidade subiu um degrau na escada do longo processo civilizatório. Por aqui esse mínimo patamar civilizatório (conquista da longa caminhada da humanidade) vinha sendo colocado por terra. Em uma batalha incessante, desde Michel Temer, todo direito se converteu em privilégio e deve ser eliminado.

O processo se radicaliza com os atuais mandatários do país: direitos, princípios, ideias, conquistas, devem não apenas ser eliminados, mas serem odiados. Todo traço de democracia, participação, de pensar distinto é ameaça, deve ser eliminado, combatido ferozmente, estigmatizado. Todos viramos Geni da noite para o dia e os homens e mulheres de bem, que amam a pátria, proprietários da bandeira verde e amarela, que falam com e por Deus, que detêm as fábricas, os campos, a vida e o destino dos pobres, os meios que convencem os pobres e aos médios que se convencem que são ricos e escolhem estar ao seu lado, estão no seu sagrado direito de nos ofender, difamar, agredir; enfim, todos sabemos o destino da Geni antes, durante e depois do Zeppeling. Os pobres devem deixar de sugar o Estado.

Eis que surge o inesperado, um vírus invisível, que torna visível a necessidade do Estado, coloca a humanidade em uma encruzilhada: salvar vidas ou salvar economias, contabilizar mortos ou cifras. Aqui estamos todos, nessa encruzilhada, nesse momento histórico. Sim, é uma nova realidade. Há que arregaçar as mangas e enfrentá-la e aí cada um o faz à sua maneira e, ao fazê-lo, se desnuda.

A grande arma até agora existente para esta luta é o isolamento social (dizem os cientistas, as vozes e forças cultas e não ocultas), mas isso tem um custo emocional e econômico. Os grandes líderes do mundo não vacilaram. Podem até não ter acreditado, em determinado momento, na potencialidade, velocidade e letalidade do inimigo, mas ao reconhecê-lo, agiram em defesa da vida, tomaram as medidas necessárias para combater o inimigo. Diz um velho ditado: errar é humano, mas persistir no erro é burrice. O erro dos outros – que custou a vida de outros seres humanos em outro local do planeta – deveria nos ter dado a vantagem de caminhar mais rápido que o vírus e minimizar seus efeitos (que todos já sabiam qual era e qual o resultado final). Mas isso exigia lucidez no momento de adotar as medidas e isso exige uma visão civilizatória de mundo, o que anda raro por aqui. Preferimos repetir o erro, não parar, menosprezar; afinal era só uma gripezinha. Os grandes líderes, os verdadeiros estadistas que sabem qual o seu papel em um momento de trânsito histórico, colocaram o Estado no seu devido lugar, de onde nunca deveria ter saído e cumpriram seu papel, buscando garantir e permitir o isolamento, na prédica e na prática, garantindo renda aos desempregados, autônomos, às populações vulneráveis, aos trabalhadores. Sim, salvar vidas custa dinheiro, o dinheiro que é do povo, fruto do suor e dos impostos pagos por todos, que é entregue pelo povo ao Estado, o mesmo Estado pelo qual abrimos mão de parcelas de nossa liberdade para que ele nos assegurasse proteção, liberdade, vida digna.

Por aqui vimos, ouvimos o que não acreditávamos pudesse ser dito ou feito. Lembro das palavras de Victor Jara: Ay canto, que mal me sales cuando tengo que cantar espanto. Espanto como el que vivo, como que muero, espanto. Del verme entre tantos y tantos momentos de infinito en que el silencio y el grito son las metas de este canto. Lo que veo nunca vi, lo que he sentido y lo que siento hará brotar el momento.

O Presidente da República fala em "gripezinha", em covardia dos que não querem sair às ruas, de que o Brasil não pode parar. Faz campanha oficial, com dinheiro público, com o dinheiro do povo, ainda que coloque o povo em risco. O presidente pressiona, faz queda de braço com o Ministro da Saúde. Exige, do alto de seu saber científico, ser ouvido. Exige o fim ou flexibilização do isolamento, prescreve medicamentos. Se for atendido e deste passo atrás resultar a expansão do vírus e de mortes, quem será o culpado?

Empresários de renome no país deixam claro que a morte de alguns poucos (alguns mil brasileiros) não pode emperrar a economia. O Presidente sai às ruas, abraça, aperta mãos, incentiva a quebra do isolamento, convoca e é atendido. Carreatas são vistas em diversas partes do país. Seus participantes – muitos deles, em carros importados, não descem de seus carros, usam máscaras. Mas não é só uma "gripezinha"? Se exigem abertura do comércio, a retomada das atividades econômicas. Estarão estas pessoas na linha de frente, correndo o risco de contaminação? Aposto minhas fichas que não. Estarão em casa, protegidas, administrando seu lucro. Afinal, algumas poucas mortes não podem emperrar a economia. A morte de um não deveria nos diminuir a todos? Todos não somos iguais perante a Lei? A vida não deveria valer mais que a propriedade? Que existem dois "Brasis" todos sabemos, mas pode haver valor distinto para a vida de dois brasileiros?

As respostas parecem óbvias. Se todos respondessem sim, não haveria espanto nem pandemônios. O que assistimos foi, em plena luz do dia, muitos dizerem não. E o dizerem com palavras e atos. Os atos materializam ideias, visões de mundo, um mundo em que não há lugar para todos. O pensamento comum os une para alcançar o seu objetivo: o lucro a qualquer preço, em desrespeito à vida. Isso, e o digo com desrespeito, é se unir para fazer o mal.

Não se diga que o fazem para o bem do país. O mal se faz de várias formas, consciente ou inconsciente. Como a exploração é natural e naturalizada, os atos e afirmações de agora nada mais são do que a banalização do mal, a continuação de um processo que exige o sacrifício de vidas humanas em prol do lucro. Admitir essa ideia, defendê-la e atacar os que pensam em contrário deixa transparecer que não se trata de um agir inconsciente. De qualquer forma, mas temprano que tarde, a história cuidará de fazer seu julgamento.

Uma vez, não recordo quando ou onde, li em um muro, esta frase, da qual desconheço a autoria: Os ricos farão qualquer coisa para salvar os pobres, menos descer de suas costas. Sim, o Brasil não pode parar, ainda que caminhe para trás, na contramão do resto do planeta. Que se reduza a jornada de trabalho e salário, que vivam pela metade, que paguem suas contas pela metade, usem remédios pela metade, que poupem a ração diária. Aliás, faça melhor, faça jejum, assim não se gasta e se está sob a proteção de Deus. Mas que trabalhem, não sejam covardes, vagabundos que preferem ficar no conforto do seu lar.

A conta e os mortos desta guerra começam a chegar. Tudo que era claro e certo se confirma: há o risco de faltarem leitos, respiradores. A "gripezinha" esfrega as mãos, lambe os beiços, sorri, convoca os coveiros. Este Brasil. Sim, talvez não pare. Tomara que não tenham de trabalhar 24 horas por dia, pois não haverá pagamento de horas extras. Quando as mortes cessarem haverá o acerto do Banco de Horas.

Tomara que não culpem os pobres. Tenho minhas dúvidas, afinal, como diz Jorge Drexler (Hermana Duda) pasarán los años, cambiarán las modas, vendrán otras guerras, perderán los mismos. Que a inocência não seja transformada em crime. Espero não ver os pobres “como a mais bela tribo, dos mais belos índios, serem atacados por ser inocentes" (Renato Russo – Índios).

Afinal, os pobres são muitos, moram muitos na mesma casa, no mesmo lugar, onde todos moram muito próximos, porque a pobreza é larga e o espaço para os pobres reduzido (e por isso se amontoam). Mais uma vez lembro Victor Jara (...si yo no tengo lugar en la tierra...). Não possuem água potável, esgoto, saúde, esperança, trabalho, renda e estes, afinal, essa turba é que sobrecarregará o sistema de saúde o asfixiando e, ao final, morrerão de falta de ar, por falta de respiradores. O país que não lhes assegura vida digna, tão pouco morte digna assegurará.

Afinal, não era uma "gripezinha"? Não era para ir para a rua. O freio, o isolamento exige ação, garantia de sobrevivência para a população, a qual demora e talvez chegue tarde, quer por alguns já terem partido e outros terem contaminado outros porque não podem lavar as mãos em água ou porque tiveram de ir à luta contra a fome e a pobreza, revirando lixos, catando latas, papelão, cuidando carros, pedindo esmola, indo para rua trabalhar, entrando em filas, amontoando-se em coletivos, trens etc etc etc...

Agora a saúde dos pobres conta, porque entra nas contas do governo, pesa no orçamento, prejudica a recuperação da débil economia que, mesmo após a derrubada de um governo legítimo, após a reforma trabalhista, já não respondia.

O invisível torna visível o de sempre: a existência de um apartheid invisível, já consolidado e aceito pela classe média e, sobretudo, pela minoria que concentra a renda do país.

Mas, como dizia Eduardo Galeano: “vamos a clavar los ojos más allá de la infamia para adivinar otro mundo possible.”

Estamos todos em uma mesma situação, mas não em uma situação idêntica. A desigualdade social está aí e é mais evidente que nunca. De todos é exigido o sacrifício, o pensar no próximo, afastando-se dos próximos para isolar o vírus. O sacrifício é o mesmo? Há duas formas de isolamento: uma com conforto e com segurança econômica, a outra com precariedade, fome e desespero.

Portanto, não nos enganemos. Estamos em uma mesma situação, mas em situações distintas. Estamos isolados e unidos pelo medo, pela dor, pelas mortes, pela tragédia, mas o sacrifício de alguns é imensamente superior. A estes que tudo sempre foi negado se pede o mesmo que aos que tudo ou quase tudo tiveram.

Muitos brasileiros, cientes desta realidade, se lançam ao auxílio dos mais necessitados. Pelo país afora são muitos os bons exemplos de solidariedade, de ajuda ao próximo. Enquanto não há auxílio do governo (que tarda em chegar e, ao tardar, alimenta o desespero dos mais necessitados e talvez acabe por endossar o discurso palaciano de que o isolamento é o culpado pelo agravamento da situação), busca-se remediar a situação das populações mais vulneráveis. Sem trabalho e renda não há como assegurar o isolamento.

Mas e depois? Voltemos ao início. Antes do inesperado, do vírus que nos fez mirar o espelho e rever a desigualdade, a necessidade da intervenção do Estado etc., vivíamos sob o discurso da austeridade, que conduziu à Reforma Trabalhista, à Reforma da Previdência. Discussões sobre redução de salários de servidores públicos, fim da estabilidade de servidores públicos, privatização de toda ordem, inclusive da saúde e previdência, encontravam-se na boca de governantes e de seus representantes no Congresso Nacional. Em meio à PANDEMIA, uma das medidas provisórias do governo permite que sejam reduzidas jornadas de trabalho e salário e outra que os trabalhadores recebam férias após o gozo destas, o que já demonstra o que poderá vir pela frente.

É sabido que a economia dos países será abalada. Por aqui não será diferente. Como iremos nos comportar quando recomeçarem as discussões sobre a reconstrução da economia: continuaremos a admitir que o Estado não é necessário? Permitiremos que os direitos trabalhistas sejam, de uma vez por todas, extintos para que alguns possam recuperar o lucro de forma mais rápida possível? Permitiremos, de uma vez por todas, o fim de um patamar mínimo civilizatório? Enfrentaremos as propostas de destruição do Estado, rechaçando as privatizações? Será possível admitir que existam mais leitos privados do que os destinados ao SUS? Teremos coragem de exigir que os mais ricos colaborem mais para a retomada do crescimento, como, por exemplo, taxação de grandes fortunas? Teremos coragem de exigir uma renda básica para todos os brasileiros? Exigiremos que não existam mais brasileiros sobrevivendo em condições indignas, sem água potável, sem tratamento de esgoto? Reconheceremos que somos responsáveis pela poluição e que o ar e as águas ficaram mais limpos quando freámos a corrida frenética do dia a dia? Será possível uma outra forma de vida, com menos trabalho, mais qualidade de vida e sem tanta agressão ao meio ambiente? Será possível uma vida mais livre e com mais oportunidades? Conseguiremos eliminar o vírus do ódio? O que faríamos se tivéssemos mais tempo? O que fizemos quando tivemos mais tempo, durante os isolamentos?

Enfim, estas são algumas das minhas perguntas. Cada um terá as suas. As respostas determinarão se aprendemos algo que permita mudar a perversa realidade do sistema e do nosso país tão desigual e injusto. Esta é a oportunidade desta geração, daqui e do mundo. Estamos em uma mesma situação, mas não em uma situação idêntica. Talvez isso não seja possível, mas seja possível algo parecido. As cartas estão na mesa. Espero o passo à frente, a subida de um degrau a mais na escada da civilização. A retomada de um patamar mínimo civilizatório já seria uma grande vitória. De qualquer sorte, é cedo; a guerra está em curso. No nosso caso, no começo.

Estamos em uma mesma situação, assistindo, como sempre, o que há de melhor e pior nos seres humanos. Espero que mais temprano que tarde, todos se reencontrem bem e com saúde, que todos possam se abraçar e beijar longa e demoradamente. Espero que o vírus do ódio sucumba junto com o vírus que agora combatemos, que os inimigos voltem a ser apenas adversários e se abracem como seres humanos, em uma nova vida, em um novo planeta, em um novo país.

Por Maurício Raupp Martins

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